o jogo vale a vela, como dizem tanto em inglês
Outro dia numa mesa de bar uma amiga comentou com sarcasmo que meus amigos só falavam de filmes e livros - que era uma disputa pra se mostrar, pra dizer que "sabe" ou que "conhece" mais que as outras pessoas.
Acho que uns dois dias depois outra garota no meio das nossas conversas obviamente ficou com a mesma impressão - e quem sou eu para contradizê-las!
Certamente que existe por aí, em toda parte, essa galera que não consegue tirar os olhos da tela, não consegue perceber a sala do cinema e estão tão compenetradas numa ilusão do que elas chamam de "A Vida", e que estão tentando disputar qualquer coisas com nomes de bandas, escritores, ou quaisquer coisas que, além de ignorantes, são obsoletas; porque hoje existe o Google e não há qualquer espanto em quaisquer tipos de enumeração e catálogo.
Sei lá, talvez isso exista no coração de alguns dos meus amigos. Eu até acredito que existe em alguns deles. Mas eu, pelo menos, enquanto estou prestando atenção na conversa deles, isso é a última coisa que passa pela minha cabeça.
Quando eu falo de um filme, ou de uma música, etc, com alguém, está implícito no meu comportamento o que me está acontecendo exatamente agora.
Estava me sentindo mal. Tentei tocar violão, não me agradava. Já estava cansado do livro que estou lendo, porque hoje já passei muito tempo lendo. Estou cansado do jogo que instalei no meu computador pra me ocupar o tempo, mas hoje eu já joguei muito também. O violão me recusou. Sentei nessa porra de cadeira na frente desse computador tão onipresente e desinteressante que quase odioso.
Então pela força do hábito eu lembrei de buscar a letra de uma música que há muito tempo eu espero aparecer na Internet. O cara canta muito baixinho, não dá pra entender tudo. O baterista dessa banda me mandou a letra há muitos anos, quando meu email ainda era da BOL. Já foi pro saco. A letra ainda não está disponível numa busca, mas foda-se.
Coloquei a música pra ouvir, enquanto buscava. Agora estou ouvindo aleatóriamente as poucas músicas que tenho dessa banda. Não vou falar que banda é. Vai tomar no seu cu. Isso aqui não é uma pegadinha pra alguém ler e "curtir o som que eu recomendei" e essas merdas. Vejo que meus amigos provavelmente competindo na categoria se vangloriam de agradar com sugestões. Isso aqui não é um problema de vaidade. Só quero te falar de uma coisa completamente diferente. Não importa que banda é.
o cara está cantando agora e o ritmo me tirou total do mal-estar. Por alguns instantes o mundo não existe porque só existe a música e minha atenção e um cara que às vezes canta baixo demais, mas é lindo. E quando ele fala alto as palavras são incríveis. Pelo menos pra mim.
É esse sentimento que eu quero oferecer das pessoas quando recomendo qualquer coisa. É em busca desse sentimento que eu presto atenção nos meus amigos falando em desenho japonês, Jorge Luís Borges, Star Wars Kid, o escambau.
Tem um livro que eu li (recomendado) recentemente e que nos primeiros capítulos tem uma ilustração perfeita de como as pessoas atribuem tudo ao diabo e pintam de negra qualquer nuvem que um vizinha solta pela chaminé.
Ora, mas que vida... hueahueauheauheauhea
vou parar por aqui, eu tinha um plano e um propósito mas não tinha absolutamente nada a ver com minha vida e com o que tem me acontecido
apenas um tempo morto, como nesses joguinhos modernos que seu personagem passeia livremente pela cidade e você entra num fliperama, nessa cidade virtual, e lá dentro joga um outro joguinho
como um desses joguinhos secundários
e então minha vida voltou pra dentro de mim, e a música agora é secundária
e o que eu estava dizendo, então, está completamente perdido no concreto morto do passado e não sou eu que vou ficar aqui quebrando tijolo imaginário quando as paredes de pedra de verdade à minha volta ficam tão sólidas
agora eu vou sair pra comprar uns cigarros, eu acho
são meia-noite e pouco
não sei que foto colocar
vou ali ficar triste
mas está tudo bem
porque - agora numa final convergência das divagações iniciais e minha vida prática - eu não vivo num mundo cheio de fantasmas
eu vejo várias nuvenzinhas bonitas
estive voando numa nuvem bem hello-kitty que não tinha nada de demoníaco ou de má intenção aqui atrás dos meus olhos
e se você sai de uma nuvem pra outra - de uma música pra um filme, de um livro para uma garota, de uma garota para uma noite comprar cigarros - há beleza em tudo e mesmo que o quadro seja triste, algo ainda se encanta e permanece a certeza de que vale muito a pena
-na foto: foi a primeira que me agradou em relação qualquer com o post
alguns amigos queridos
On February 22 2010
Edit