O velho português estava sentado na beira da enseada, como fizera todos aqueles anos. Era comum vê-lo ali, tornando-se cada vez mais um marco histórico, tornando sua história ainda mais entristecedora. Todos sabiam, todos conheciam seus passos; ele ia diariamente à beira do mar, levava consigo uma típica cadeira de praia, velha, com a sua tela gasta pelo tempo. Devorada por lembranças que nunca se acabavam. Ele tinha boas lembranças, sim.
Ele ficava lá, quando o sol nascia e ia embora muito tempo depois. Voltava à tarde, quando chegava o crepúsculo. Notava-se que sua barba era branquíssima, tão branca quanto a espuma que se formava nas ondas do mar que chegavam rasteiras nos seus pés cansados e calejados. As pálpebras apertadas escondiam profundas marcas de catarata, apenas uma de suas muitas medalhas da vida, e camuflavam o que um dia foi um par de olhos negros.
Era de conhecimento popular que ele repetia esse ritual constantemente. Mas a razão nunca foi clara. Poucos realmente tinham extraído qualquer informação que fosse considerada valiosa daquele homem. Seu cabelo abundante, e espesso cedia ao favor do vento, mas a rocha de sua mandíbula larga e forte, nunca se movia.
Havia dias em que a chuva era muito forte. Derrubava árvores e levava as ondas até a base da barricada. Mas ele era mais duro que o próprio mar. As ondas o temiam, respeitavam. Deitavam e se rastejavam ao encontro da sola de seus pés. Por vezes, na chuva, víamos o mesmo guarda-sol velho, branco com bolas azuis, amarelas e vermelhas.
Na virada de outono, quando os dias começavam a parecer mais curtos e o frio se aproximava. Mas nem mesmo isso impedira o velho homem de ser fiel ao seu compromisso. Ele estava lá, dia após dia. A neblina pela manhã, por vezes, cobria a visão quase que totalmente, limitando a alguns palmos o quanto era possível se enxergar. Mas era tão certo quanto o sol que iluminava o dia, ele estaria lá. Todos os dias da semana, o mês inteiro, durante todos os anos. E tem sido assim até hoje.
Passava-se das seis da tarde, e o sol já se curvava sobre o mar, afogando suas chamas no horizonte. Podia-se notar que o céu se tingia de turquesa e mais acima escurecia num tom azul profundo. As estrelas brilhavam às suas costas, a lua iniciava seu ciclo no mesmo horizonte que o astro rei se deixava tragar. E ele estava ali. Imbatível. No mesmo lugar, como sempre, com a mesma cadeira. Já havia muito tempo ninguém ia ter com ele, não se sabia quais eram suas razões, o que o motivava a fazer aquilo todos os dias.
Por isso me invadiu o peito, um sentimento qual nunca havia sentido antes. Um desejo desafiador, um ímpeto avassalador. Tomei em minhas mãos uma cadeira de um quiosque qualquer. Me aproximei lentamente e coloquei-me ao seu lado. Minha razão pareceu voltar ao raciocínio e pareci ter perdido a noção do que fazia, questionei a mim mesmo e ignorei a resposta. Estava ali, sentado. O silêncio que preenchia aquela cena me completa até hoje, posso sentir o mar tocando a areia enquanto quebra e desliza lentamente até meus pés. O sol já se ia, deixando no céu apenas um mero reflexo de seu resplendor. Foi então que virei meus olhos para o português e o notei me encarando.
Ele sorriu. Voltou seu olhar para o horizonte e, observando cada detalhe daquelas águas, me perguntou:
- Você quer saber, não quer?
Não houve resposta. Ele simplesmente se prontificou a falar... e foi ouvido.
On February 07 2011
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