Túnel

Há dois anos, praticamente, todos os dias eu faço o mesmo caminho. Redenção, túnel, escadas, Júlio de Castilhos.
São 17 degraus de descida e 24 de subida. São milhares de rostos que eu vejo saíndo da estação do trem. O que mais chama a atenção são as falas e o silêncio em cada um deles.
E é tudo tão estranho e louco, chegando até ser meio paranóico, porque estes milhares de pessoas são as pessoas que eu amo.
Sim! Eu amo cada uma delas e eu sempre digo bom dia quando eu quero.
Sempre ajudo algum idoso a subir os degraus, sempre tiro foto da arte em grafite do túnel que a cada estação muda. E falando em arte, não tenho como não parar e contemplar cada nova imagem.
As vezes como o pastel da tia Maria, do meio do túnel. E tem ainda o argentino que vende bolsas, o Estebán. Ele me intriga e seus cabelos enormes fazem lembrar do povo latino-americano.
Muitas coisas acontecem nesse túnel. Tem até gente bonita que passa com cara de nojo por ele, tem gente que tira um soninho nas escadas, e eu vejo tudo, todos os dias.
Todas as pessoas.
Mas quando descemos ou saímos vemos pessoas que não estão no túnel correndo, atrasadas, vemos pessoas deitadas nas ruas, com seus cachorros companheiros.
O que fazer?
Algumas pessoas descem mais rápido, outras passam como se aquele alguém não fosse nada, outras atiram uma moeda como descargo de consciência, e outras como eu ainda conversam.
Sei do Paulo, que mora na rua por opção. punk desde os 20 anos, ele escreve sobre a vida na rua... Conheço também a Paulina... ela está grávida, mas não lembra de quem, e está com 9 meses. è uma menina que vai nascer... Espero que minhas roupinhas sirvam nela e estou louca pra conhece-la já. Comprei roupinhas rosas. O nome da filha dela será Alice.
A Paulina disse que é como se fosse a história da Alice no país das maravilhas. A única história que contaram pra ela. Mas eu disse pra não se preocupar, estarei lançando um livro e ela terá outras histórias pra ler. Enfim... túnel, túnel, escadas...
Quando eu fiquei doente e não desci as escadas por uma semana, eles perguntaram:
- Flora, por onde andou, não te vimos mais, estávamos preocupados já.
Contei do ocorrido e prontamente recebi um abraço e 'melhoras'.
Quando cheguei no trabalho... não me disseram que tinham sentido a minha falta, embora eu sinta falta até de quem não conheço. Mas ok.
É a vida.

On March 19 2010 Edit







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