Depois do temporal ^!!!^
Algumas palavras sobre o Black Mekon
Em breve deve chegar o tempo em que, passado o calor desses últimos dias e esfriados os nossos cérebros, a gente consiga falar sobre o que aconteceu conosco durante os doze meses deste ano que agora está se dissolvendo pra sempre. Não o que a imprensa mostrou, nem o que divulgamos, mas o que nós próprios (Francis, Michel, nosso incrível produtor Jack e eu) experimentamos com os nossos sentidos, e que acabou por queimar um grande e incandescente 2009 na nossa pele pro resto da vida como um lembrete, um marco, um fogo no deserto à noite. Sou romântico, desculpem.
Mas também é possível que a gente decida se calar e deixar tudo entre nós como uma jóia de família, como gostamos de fazer muitas vezes, em nome de uma voz interna coletiva que costuma sussurrar divertida e maliciosa: Calem a boca e toquem.
Mas a vontade de falar é grande e indomável e, por enquanto, eu vou representar a banda na tentativa de registrar (e muito mal, que isto é apenas a web) as nossas impressões sobre os três mais recentes dias das nossas vidas, e não espero ser muito bem sucedido na tarefa. Na verdade, este sorriso que estão vendo (sim, vocês de fato podem ver) no meu rosto não me permite explicar muito, por isso, duas palavras: Black. Mekon.
Não se trata de resgatar na memória os melhores shows que vimos, ou as melhores bandas com quem tocamos, ou as noites em que o clima estava mais mágico e selvagem. Já vimos muito. Vimos de quase tudo. Até aqui foram no mínimo dez anos em quatro, acreditem, e fizemos muito barulho com muita gente boa e muita gente ruim. Acontece que, nessa semana que passou, pouca gente (ok, o Jekyll encheu e o Jack Rabbit quase, o que é bem bom se considerarmos a atual situação do rock local, mas que não se compara ao que rolaria com um pouco mais de informação disseminada por aí) se deu conta de que algo raro e precioso visitou as cidades de Porto Alegre, Cachoeirinha e Sapiranga.
O Black Mekon apresentou uma sequência de três shows que desenharam uma linha ascendente em forma de navalha. Ela brotou do pequeno palco do Dr Jekyll com um brilho audacioso na noite de quinta-feira, 10 de dezembro, e deixou os presentes se entreolhando com as mentes em faíscas; deslizou em direção ao segundo piso do prédio do Jack Rabbit na noite seguinte, enquanto lá fora o céu desabava trovejando sobre Cachoeirinha; e culminou no sábado sob as luzes do bucólico Bar do Morro numa Sapiranga fria, chuvosa e escura que provavelmente nunca mais vai ter tanta cara de interior da Inglaterra num brilho que partiu duma fagulha rangente, raspou no ar, inchou até o limite e irrompeu num incêndio que nada mais pôde conter.
No meio do salão, os poucos afortunados que apostaram que valia a pena deixar suas casas naquela noite sinistra e pagar cinco pratas pra ver um par de bandas fantasiadas (altamente arriscado, afinal rock é pra macho, mermão) desistiam de tentar compreender o que presenciavam, e mal podiam perceber que nunca mais voltariam daquele terreno onde tinham acabado de pisar.
No palco o Black Mekon matava uma charada por segundo. Cada vez que a baqueta de Uncle Butcher desabava sobre uma pele, uma rachadura brotava no velho colosso sagrado do rock aquele imenso ídolo de pedra que construíram durante décadas, e que tantos e tantos se gabam de conhecer tão bem, ainda que não consigam disfarçar uma dificuldade penosa de apontar num mapa musical onde ele fica. Posso garantir que metade dos que puderam vê-lo de perto nunca vão ser encontrados em verbetes de enciclopédia. Nihil Sacrum Est.
O termo Revelação Espiritual (assim como as palavras musa, diva, e todo um punhado de adjetivos bem em voga que já viram dias e destinos mais felizes) é hoje tão fútil e tão piegas que lamento não poder usá-lo com a força que teria em outros tempos, mas não creio que outra expressão pudesse descrever o período de três dias e três noites que passamos com esses três sujeitos. O que muitos vão traduzir automaticamente como ok, já sei o que eles fizeram e já vi isso antes, mas que outros vão compreender por experiência própria. Enfim, cada um lida sozinho com o que traz dentro de si.
O ano que começou com a morte de Lux Interior e a sensação real de que o nosso mundo acabava de ficar mais estranho, como o calafrio de quem se prepara para desembarcar numa estação às escuras, terminou com uma mensagem entregue num envelope negro por alguém sem forma e sem rosto que chegou e partiu em segredo.
A temporada chegou ao fim. Um ciclo se fechou e, como nos campos devastados que as tempestades recentes deixaram pra trás, o ar ainda exala uma eletricidade fresca. Uma felicidade nova e assustadora dança louca ao redor de nós, agarrada firme a um desejo destemido que nos olha com um rosto lindo e forte.
Ron
14/12/2009
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Foto by Jacqueline Chaves (Steve Black Mekon, Dave Brother Mekon, Francis K, Ron, Uncle Butcher, Jack e Michel)
On December 14 2009
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