Tua graça caminha pela casa
Moves-te blindada em abstrações, como um T.
Trazes a cabeça enterrada nos ombros
qual escura rosa sem haste.
És tão profundamente
Que irrelevas as coisas, mesmo do pensamento.
A cadeira é cadeira e o quadro é quadro
Porque te participam.
Fora, o jardim modesto como tu,
Murcha em antúrios a tua ausência.
As folhas te outonam, a grama te quer.
(...)
Direi baixo o teu nome
Não ao rádio ou ao espelho,
Mas à porta que te emoldura, fatigada,
E ao corredor que pára
Para te andar, adunca, inutilmente rápida.
Vazia a casa
Raios, no entanto, desse olhar sobejo
Oblíquos cristalizam tua ausência.
Vejo-te em cada prisma,
Refletindo diagonalmente a múltipla esperança
E te amo, te venero, te idolatro
Numa perplexidade de criança.
de Vinicius de Moraes
On December 18 2006
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