Coração.
Nunca lhe neguei nada. Nenhum afago, chamego, desejo, anseio, beijo ou felicidade. Senti-me sempre na obrigação de fazê-lo, tanto pela fraqueza que apresentava ante minha presença quanto pela piedade que sentia por mim mesmo na vontade de fazê-lo. É bem verdade que não carecia de tanto, poderia, sim, muito bem, viver só, contente por ser inteiro, emocional, passivo da própria arte, não necessitando de minhas arquiteturas tão bem planejadas para construção desse circo de piedades que armava todas as manhãs, apenas pelo sopro da esperança.
Agora respire vivo, meu jovem, enquanto lhe afogo no calor e no sebo do travesseiro de fronha recém-usada, pois amanhã será apenas sombra do que um dia almejou ser. Certo que fraquejo na hora de fazê-lo, pois enquanto esteve comigo, não nego, achei que tinha sido feliz, mas agora recuperada em mim a essência de que sou, abnego à falsa alegria que parecia me trazer às manhãs de sua visita, e já que insiste em não me abandonar, forço seu abandono e lhe deixo recalcado no rechaço de meu corpo. Apodreça.
On March 31 2010
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