[i]Ele não pensou em momento algum que iriam chegar ao ponto de se beijarem de novo, só deixou as circunstâncias os levarem. Foi engraçado que a reação foi quase a mesma. Ainda que não passasse pela sua cabeça fazer qualquer tipo de maldade com algum de seus amigos, principalmente o grande Zolhão.

Quando chegou a casa da sua mãe, viu Dona Lizandra passando um velho vestido escuro, ela não gostava da cor preta, mas usava em ocasiões especiais e eventos religiosos importantes um de cor azul marinho. Ela estava cantarolando qualquer coisa parecida com uma marcha de carnaval, parecia feliz e isso era desconfortavelmente mórbido. Uma coisa era ele não sentir a falta do pai, outra coisa era a sua mãe que viveu com ele algumas décadas fazer desse evento uma comemoração.

Viu que sua roupa também estava pronta, a missa aconteceria em dois dias. Constatou que a mãe havia pensado em tudo, até que o velho smoking precisava dos devidos reparos para poder vestir o agora crescido Cristian. Não quis experimentar pra ver se cabia, confiava na sua mãe, e não quis admitir pra si mesmo que... Independente da roupa, não fazia questão nenhuma de participar de um evento para se despedir do seu pai. As marcas que o velho Malta havia deixado eram impossíveis de se apagar. Sentiu mais uma vez que seu pai entraria bêbado pela porta; gritando com a mãe e derrubando as coisas dizendo que estamos perdendo tempo fazendo esse tipo de homenagem.

Foi dormir pensando na noite catastrófica que passara no bar, onde deveria ser um reencontro de amigos, quase virou algo parecido com adultério. Não admitiria pra ninguém, muito menos a Keila que sentira vontade de reviver esse fato importante de sua vida. Tirou o papel do bolso e ficou ainda mais chateado por constatar que um dos itens demoraria muito pra ser riscado.

Abriu seu computador. Havia acesso a internet na casa da sua mãe, ainda que a dona Lizandra quase não usasse essa ferramenta de comunicação. A navegação era lenta, mas suficiente pra conseguir ver que havia mais de cem e-mails em pouco mais de uma semana longe do mundo virtual, mas nenhum deles de fato importante para perder tempo. Na verdade Laila não tinha mandado mensagem, poderia estar ofendida com a rejeição, com as palavras. Ele começou a escrever um pequeno texto falando das suas sensações, do que estava pensando, fazendo. Mas só iria fazer isso se ela o procurasse primeiro. Já havia retomado o contato, seu orgulho não permitiria que o fizesse de novo.

De noite jantou o seu prato favorito requentado do almoço, depois que convencer sua mãe que não era necessário fazer todo o processo de cozinhar de novo só por um jantar. Que deveria guardar energias para a missa. E que não estava com tanta fome assim. Na verdade qualquer coisa que comesse não sentiria o gosto, então seria um desperdício do bom trabalho da sua mãe.

Mexeu em suas coisas e constatou que faltava um livro na sua mala de viagem. Sentiu falta de algo descompromissado para ler. Foi na estante em seu quarto e pegou qualquer coisa do tempo da escola. Um exemplar ilustrado de O pequeno Príncipe – viu que fez inúmeras anotações, que o livro era assinado pelos melhores amigos da época. Sabia que ao abrir o guarda roupas estaria no mesmo lugar uma fantasia fiel ao desenho de Antoine de Saint Exuperry. Que assim como o autor, queria uma carreira artística ao invés de ser uma mera peça de um relógio que não mostra as horas de maneira clara e verdadeira. E que só pessoas inteligentes teriam visto uma cobra comendo um elefante. E constatando que não era suficientemente esperto pra ver uma diferença tão gritante, contrastando que nunca poderia ser o músico que gostaria resolveu ir dormir.

Pouco antes disso colocou o livro exatamente onde estava, abriu o guarda roupas e olhou a fantasia que usou em sua festa de cinco anos, certamente não serviria mais, mas quem sabe a Dona Lizandra não faça alguns ajustes. Daria essa fantasia ao seu filho quando fizesse meia década de idade. Mas ele só conheceu a história do menino que pode ter sido só uma miragem do deserto quando Cristian lia o livro para que ele parasse de chutar a barriga da mãe e ambos conseguissem dormir. Eventualmente dava certo, nem sempre. Enxugou uma ou duas lágrimas que caíram e foi pra cama, logo caindo no sono.

A noite sonhou algo parecido com estar preso em um labirinto branco onde todas as saídas tinham um espelho com a imagem do seu pai falado “-Você vai morrer sozinho”! Sempre que achava uma nova saída, lá estava o senhor Malta com a frase, cada vez mais agressiva, cada vez mais maldosa. Quando o braço do homem parece saltar do que fez os Índios brasileiros praticamente doar toda sua comida, terras e cultura aos Portugueses, Cristian acorda suado, corre pro banheiro para lavar o rosto e ao se deparar com a sua imagem no espelho da pia, constata que é herdeiro da maior maldição hereditária que ele poderia receber: Era a imagem cuspida e escarrada do seu progenitor.

Continua...
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On March 19 2010 Edit






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male - 20/11/1983 (28 years old)
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