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Luís estava visivelmente bêbado, não suficiente pra estar desequilibrado, com as roupas amassadas, e o rosto como se não dormisse há anos. Ele continuou os insultos: - Desde que vocês se encontraram naquele maldito avião, ela tá até mais bonita. - Em voz tão alta que a cidade vizinha poderia ouvir, algumas pessoas pediram a conta e saíram do bar, todos ouviam os comentários ácidos daquele homem que estava constrangendo mais do que os ex parceiros de banda.
Porém Cristian que conhecia Luís há anos sabia o que fazer; colocou a cadeira na frente e o convidou pra sentar-se ao lado da sua esposa, sabia que os três tinham muitas histórias juntos e que relembrá-las, sem tocar no lance amoroso que aconteceu no decorrer disso, era a melhor forma de acalmar o embriagado amigo.
E foi o que aconteceu: trinta minutos depois Zolhão era só sorriso; lembrou das festas, das meninas que ficou na época da escola simplesmente por fazer parte do trio, ao constatar isso olhou com desdém para sua esposa e isso fez os três caírem na gargalhada.
Propuseram fazer um ensaio na casa do casal. Relembrar os bons tempos. Quando fizeram a indicação da data, exatamente no dia da missa. Ainda que isso não fizesse diferença, não achou certo fazer qualquer outra coisa nesse dia.
Mesmo assim a conversa era animada na mesa dos três, um ou outro colega de escola passava pelo bar e reconhecia o trio, lembravam do show na escola, da professora e isso era engraçado. Ainda eram ‘mini celebridades’, ainda eram reconhecidos e isso fez a idéia de voltar a tocar se tornar ainda mais interessante. Marcaram pra dali a três dias, e Cristian lembrou-se que há anos não tocava direito uma música inteira e pediu para que fossem definidas as canções naquela hora, o que foi o maior erro da noite que ele tava conseguindo consertar.
Combinaram que cada um escolheria duas, que já ensaiaram, e que conhecessem: Keila foi a primeira: escolheu a música da Gincana: Rock N’roll All Night do Kiss, depois foi a vez de Zolhão: que optou pela canção nacional: Polícia dos Titãs Cristian escolheu Love me Do dos Beatles.
Quando olharam de novo para Keila para a próxima escolha o seu telefone tocou, com o ritmo conhecido por bastante gente, mas principalmente pelo trio, nessa hora Luís levanta-se agressivamente da mesa derrubando todas as garrafas de cima e foi embora. Parecia que a noite havia acabado, e foi então que Cristian entendeu o olhar vazio e distante de Keila. As coisas deram errado por ali também, e não seria uma reuniãozinha de banda de escola que consertariam as coisas, pensou que ficara a milímetros de distancia de Laila e que ao mesmo tempo a sentia em uma distância continental. Teve vontade de olhar de novo seus e-mails pra checar se houve alguma tentativa de contato.
Keila contou como foram os anos com Luís, que era uma pessoa maravilhosa, mas sempre teve medo de perder as poucas coisas que conquistara. Nunca subiu de cargo na empresa, nunca conseguiu parar em banda nenhuma depois que o trio se desfez. Que moraram na casa dos pais dele até conseguirem alugar uma, e que contribui com menos da metade das despesas, que gastava o pouco dinheiro que tinha bebendo. - depois a bomba – E com isso ela queria se separar.
Ele engoliu a seco as ultimas palavras da frase, Keila não entendeu o porquê, mas aquilo para Cristian eram as piores sensações que um homem poderia passar; ser rejeitado, problemas que estão além da resolução rápida. Tentou convencê-la que terminar não resolveria o problema, e poderiam criar outros. Que podem vir a terminar o casamento, mas não sem tentar tudo que for possível para dar certo. Ela começa a chorar e concorda. E ele a abraça.
Vão andando pela noite do interior. Engraçado que ainda se pode olhar para as estrelas, que andar naquela hora não era algo perigoso e sim bonito. De novo teve a sensação que o tempo não passou naquele lugar, estava exatamente como ha vinte anos atrás.
Os passos eram lentos, a conversa era trivial, Cristian não queria que ela continuasse mal por causa dos problemas, e também queria tirar a idéia de nostalgia da cabeça; conversaram sobre planos pro futuro. O que vão ou não vão fazer, que lugares querem visitar, que curso vão se inscrever. Cris brincou que havia começado o processo comprando o violão novo.
Perderam a noção de por onde estava indo, e tinham a sensação que já haviam passado pelos mesmos lugares algumas vezes. Foi quando chegaram a frente da escola, e viram o velho parquinho. O chão pros dois havia sumido, se olharam nos olhos outra vez como naquele dia, a diferença era que não estava tão escuro, mas hoje em dia as ruas mesmo em cidades do interior são mais iluminadas e deu de ver bem a cor dos olhos da moça a sua frente. Ele pegou em sua mão, como se fossem lançados para o passado, antes que pudessem mover os corpos em direção ao outro, ela diz qualquer coisa que tem que ir pra capital cedo no outro dia pra trabalhar e deixa Cristian ali sozinho.
Continua...[/i]
On March 12 2010
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