[i]Depois de desligar o telefone, foi tomar banho, mais longo que nos dias anteriores. Estava na cidade há pouco menos de uma semana, mas lembranças faziam parecerem anos. Em pouco tempo teria que entrar em uma igreja, não se lembrava exatamente o motivo. Chegando seu quarto depois de devidamente vestido pôs-se a brincar com o novo instrumento.
Fez o ritual de trocar as cordas, cuidando para que as velhas fossem devidamente guardadas para uma possível emergência. Tirou todo o encordoamento velho, limpando o braço e o corpo. Pensou em dar um nome ao violão, como dera a guitarra: “Keila”, achou que não era uma boa idéia. Lembrou-se que fez o ritual várias vezes, e que o achava chato trocar as cordas, mas que agora fazia com um prazer quase de um orgasmo.
O afinador era uma mão na roda para dinamizar o tempo, pensou no tempo que havia perdido pra colocar a guitarra em um timbre bom, quando se lembrou foi até a sala pegá-la para dar o mesmo trato assim como no violão novo. Não poderia deixá-la ter ciúmes. Instrumentos musicais têm vontade própria.
Com o mesmo afinco e atenção limpou, regulou e trocou o encordoamento da velha guitarra. Anos depois de tê-la comprado soube da brincadeira que soava mais como uma maldade que havia sobre a marca “Tonante - Instrumentos Espanhóis com alma Portuguesa, com certeza!”. Na verdade sabia da existência de artigos melhores, mas na época era a única que cabia no orçamento dos três. O baixo também era da marca “Tonante”.
Quando olhou pela janela já era noite, sua mãe havia chegado há tempos e ele nem notou, lembrou do apartamento, em como perdera a noção do tempo várias vezes, pensou também no visitante indesejado como uma lembrança distante. Cristian colocou de volta os instrumentos nos devidos lugares, comeu qualquer coisa no jantar, e foi dormir; Antes disso conversou com sua mãe sobre o protocolo religioso na qual teria que passar mais por um pedido da Dona Lizandra do que respeito ao pai morto. Nessa hora volta a perder a noção do que é passado e presente, sente como se o seu pai fosse entrar a qualquer momento pela casa e repreender os dois pelo dinheiro gasto com o funeral.
A missa que ‘comemora’ uma semana de morte do seu pai seria em dois dias. Era assim que via o evento ‘Missa de Sétimo dia’. Antes disso teria um reencontro com o seu primeiro amor, que ontem tocava bateria na sua banda, que fora a musa de uma das suas músicas, a pessoa que dera o primeiro beijo, e hoje trabalhava em aviões servindo refeições, auxiliando idosos, distribuindo revistas, recebendo cantadas de velhos com recursos monetários duvidosos. Sentiu uma pontada de ciúmes, e achou isso engraçado.
Chegada a hora do encontro, Cristian britanicamente estava no local, enquanto Keila o esperava, já havia chegado há alguns minutos, sentada a mesa e bebendo uma taça de vinho. Dadas as saudações começam a conversar sobre o passado recente, com ênfase para o de Cristian, que contou com a mesma precisão de detalhes que a de um detetive de livros da Aghata Christie. Keila prestava atenção em cada palavra, queria saber como o amigo passara os últimos anos.
Foi quando ele falou que fora na velha loja de instrumentos musicais para comprar um violão que a conversa sobre a gincana, os shows na rádio, nas festas da escola vieram a tona. Lembraram inclusive da música que Cristian fez pra moça que sentava na sua frente. Pra surpresa dele, ela mostrou seu celular e pediu para que ele ligasse pra ela; Cris lembrou que não comprou outro desde que quebrou o seu antes de viajar, então ela mostrou que o toque era a gravação de fita k-7 da mesma música. Os dois sorriram ao ver que o carinho não havia acabado.
Quando foi pegar o celular pra ouvir de novo a música, viu que Keila usava uma fina aliança de casamentos, e passaram a conversar sobre a vida dela. Pra sua surpresa soube que o nome escrito naquele anel era o de Zolhão, Cristian contou que dera carona a ele há dois dias e o mesmo não havia contado nada. A antiga baterista dera todas as informações possíveis da sua vida nos últimos anos. Falou que depois que Cristian havia mudado pra outro estado, que havia se casado ficou mais próxima de Luiz, que ele havia consolado-a, ouvido suas confidências e quando deu por si estavam namorando, as coisas aconteceram naturalmente. Já fazia tempo que Cristian e Keila haviam terminado, ela foi fazer intercâmbio em outro país e ele entrou pra faculdade. Ela voltou um dia depois do casamento de Cristiane Laila. Desde então era a segunda vez que conversaram se contar o encontro no avião.
Algo estava errado, Keila estava sendo muito superficial quando contava da sua relação com Luiz, isso sem falar que Zolhão não tinha lhe falado sobre isso, mas quando resolveu perguntar se algo dera errado, irrompe pela frente do bar o ex baixista da banda, seu olhar era irônico e desafiador, antes que os dois pudessem se levantar pra saudá-lo ele diz; - Ora ora, se não é o casal mais bonito da escola.
Continua...
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On March 05 2010
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