[i]Cortou as panquecas em pedaços mínimos, a carne moída junto com a massa feito de leite e farinha estava mais gostosa do que nunca. Quase dava pra sentir cada pedacinho percorrer o caminho da boca até o estômago. O Suco de laranja também igualmente bom, simples, forte, afinal a mistura havia mais o líquido da fruta do que água, e nem uma parte era industrializado.
Logo após o almoço, fez o que seu pai nunca foi homem suficiente pra fazer: Lavou a louça. O Senhor Malta sempre achou que trabalhos domésticos eram coisas de mulheres, que não se rebaixaria a esse nível. Dona Lizandra disse pra deixar as coisas pra ela, mas Cristian concluiu que um almoço dos Deuses deveria ser recompensado, e lavar a louça era o mínimo a se fazer.
Tomou um banho rápido, o chuveiro não esquentava muito, e Cristian gostava de água quente. Colocou uma calça qualquer e a camiseta do Pink Floyd, com a sua música preferida escrita nas costas: Confortably Number.
Devidamente vestido foi ao lugar onde havia comprado a camiseta, onde a banda comprou os instrumentos, o pedal, o lugar onde teve seu primeiro emprego. Queria riscar um dos itens da lista. Sabia que comprando um violão na cidade onde mora sairia pela metade do preço, mas lembrou das aulas de logísticas na faculdade, e pensou na frase: “-Ciclos tem que ser fechados”.
Ao chegar lá, vê o mesmo senhor, agora com os cabelos brancos que outrora eram pretos, no canto da loja, o vê apertando os seios de uma menina ruiva, com certeza a moça tinha um quarto da sua idade.
Com um som de pigarro, perguntou se loja estava aberta, olhando no canto da loja onde a menina ainda se escondia dos olhares de curiosos, por um momento Cristian imaginou ter visto Laila, o desenho do rosto, a cor dos olhos, as feições... Eram muito parecidas, e a parte engraçada, quando se conheceram, a mulher que dividiria a vida por alguns anos, também era ruiva.
Passado o devaneio, as apresentações foram postas de lado, o dono da loja reconheceu Cristian, inclusive ainda tinha o pôster do show na rádio pregado em uma das paredes. A loja havia emprestado/alugado parte da aparelhagem que a rádio usava.
Depois de despachar a moça pra casa, o velho pôs-se a conversar com Cristian. Em pouco mais de dez minutos tudo que aconteceu, sem muito detalhes, havia sido contado. Não havia muita intimidade pra se falar dos pormenores nem das coisas ruins e chatas. Cristian se resumiu a dizer: - Mudei pra cidade grande, casei e separei, trabalho em uma empresa de médio porte, e não sou mais músico. Essa ultima parte com uma pontada de nostalgia ao olhar o cartaz com sua foto de adolescente.
Falou que queria comprar um violão, que dessa vez não precisaria pechinchar, mas que um desconto não seria tão ruim, e também não precisaria trabalhar na loja pra poder pagar. As palavras de Cristian saíram de maneira engraçada, e fez o velho barbudo soltar uma risada. Os anos passaram, as coisas mudaram. A loja ganhou muita coisa boa depois que o trio fez a apresentação na gincana da escola, parecia que todos na cidade haviam aprendido a gostar de música depois disso. E o velho aprendeu a valorizar, e principalmente: LUCRAR com isso.
Cristian olhou uma meia dúzia de violões, gostou de dois... Um de cor caramelo, e outro preto. Ficou com o preto porque vinha com um “afinador” na parte elétrica no corpo do instrumento. O preço saiu mais caro que o mesmo instrumento se fosse comprado na capital, mas com os descontos e a camaradagem jamais vista naquele homem, fez com que o violão fosse comprado por um preço bom.
Antes que pudesse continuar, pediu uma caneta pegou algo no bolso e riscou o item dois da sua lista de coisas a fazer até o fim do ano, porém o item cinco provavelmente seria um dos últimos a ser riscado daquele papel.
Voltando ao que foi fazer, Cristian comprou também dois jogos de cordas novos, um pra guitarra e o outro pro violão. Algumas palhetas, e uma capa pra poder carregar a nova aquisição.
Voltou pra casa andando, pelo mesmo caminho que foi a loja. Passou de novo pela frente da escola, viu que o parquinho continuava no mesmo lugar, lembrou do item da lista que falava pra não depender tanto de lembranças que não voltam mais. Resolveu que estava na hora de voltar pra casa na cidade grande.
Ao chegar a casa de seus pais, viu que a Dona Lizandra tinha dado uma saída, provavelmente foi a feira, coisa que ela não fazia há semanas. Quando passou pela sala em direção ao quarto, viu um recado no caderno ao lado do telefone escrito:
“Cris, uma moça ligou e pediu pra você retornar. Eu volto em uma hora. - Mãe”
Cristian lembrava vagamente do número, e quando ligou pra sua surpresa era o telefone da Aeromoça que encontrara na viagem. Eles marcaram de sair no dia seguinte, em um pequeno Bar, o que adiaria a sua volta, mas um dia a mais ou um dia a menos não faria mal. E ao desligar o telefone sentiu que estava com saudades da companhia dos verdadeiros, e melhores amigos.
Continua...[/i]
On February 26 2010
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