[i]Os pais chegaram; Os de Luiz conversaram rapido com o Delegado que explicou o acontecido e levaram o baixista da banda pra casa. Ele se despediu dos companheiros e já prevendo o futuro deu um abraço longo, forte e confortante em Cristian, aquela não era uma atitude normal do grande Zolhão. Keila entendeu o gesto e acompanhou os colegas produzindo um abraço triplo.

Voltando ao presente Cristian olha pra sua mão e vê a cicatriz que ganhou nesse dia. Essa parte da lembrança gostaria de esquecer, mas a marca estava ali, pra sempre.

Quando os pais da baterista chegaram, não entenderam bem porque foram chamados na delegacia, depois das devidas explicações e repreensões pela moça ter desobedecido a uma regra, ela vai embora contra a vontade deixando Cristian ali. Era a primeira de algumas vezes que se encontrou completamente só, e com certeza a pior delas, por ter sido a primeira, ou pelo que aconteceu depois.

A princípio ter ficado por ultimo não era uma coisa ruim; recebeu de alguns policiais doces, café, sanduiches e um cobertor. Fazia muito frio a noite naquela época do ano.

Cristian olhava a guitarra como se olhasse para uma televisão mostrando um filme que hora era de terror, hora musical, hora de romance ou comédia. Mas que era o SEU filme.

Cris contou aos funcionários da delegacia, como foi o dia, como foi a detenção, o que aconteceu para que eles fossem ‘punidos’. Tudo isso tendo como expectadora especial a dona Gladys que estava algemada esperando que um dos filhos viesse na delegacia pagar a fiança. O vocalista da banda com o nome da professora de geografia já havia perdido a noção do perigo, e sabia ela não se moveria um milímetro de onde estava, não na frente dos policiais, todos simpatizaram com o jovem.

Foi quando o Senhor Malta abre a porta como se tivesse chutado-a, que Cristian viu o chão sumir. Por uma fração de segundos perdera a sensibilidade naquilo que o caracterizava “menino” e algumas gotas do líquido amarelo haviam escapado. Não adiantou o delegado enaltecer a atitude dele, nem os funcionários mostrarem que o menino estava ali como vítima, na cabeça do chefe de família a única coisa que ele entendia era: “-Que vergonha! Vim buscar meu filho na delegacia”!

Anos depois em uma conversa informal de Cristian e o agora delegado aposentado, o administrador das leis da cidade disse que se soubesse como era o seu pai, teria levado líder da banda pessoalmente pra casa dizendo que o viu na rua e que estava dando uma carona.

Dona Lizandra assinou uma meia dúzia de papéis e em pouco mais de vinte minutos a família estava em casa. Esse um terço de hora foi como segundos para Cristian, e quando deu por si, sua orelha estava sendo elevada quase ao dobro do tamanho puxando consigo o resto do seu corpo em direção ao quarto. A dor era tanta que as únicas palavras que conseguia dizer eram: - me solta, por favor.

Seu Malta não atendeu ao pedido de seu filho, quebrou vários objetos no quarto, um deles de vidro pegou no braço do garoto causando um corte considerável na pele. O pai mandou que a sua mãe cuidasse do ferimento, já havia se preocupado muito com ele em um único dia. Nem por decreto o levaria em um pronto socorro.

Cristian foi pra escola no outro dia com a mão enfaixada e de cabeça baixa. Um dos colegas lhe deu a notícia que a Dona Gladys havia sido demitida, que uma denuncia anônima chegou aos ouvidos do próprio governador do estado e ele pessoalmente ligou de madrugada pro diretor ordenando a dispensa imediata da professora.

O que talvez tenha sido a melhor parte foi que os amigos, e declaradamente fãs do trio de heróis da escola, pediram várias vezes para que eles continuassem com a banda. Keila não tinha autorização do pai pra tocar bateria, Cristian havia levado uma senhora surra do pai por isso. Os três conversaram e acharam melhor encerrarem as atividades. Mas algo bom aconteceu: foi inaugurada a rádio da escola, que de fato era uma rádio de verdade, e seria feito por alunos e ex alunos. Eles ofereceram uma grana, considerável para os padrões da época, se o trio fizesse uma apresentação com quatro músicas, incluindo a que tocaram na gincana, contar sobre a banda entre outras coisas. Era uma mini-entrevista, e isso era um bom motivo pra deixar acesa a chama da união dos três.

As coisas aconteciam muito rápidas naquela época, diferente de agora que a própria burocracia da vida moderna impede que coisas simples aconteçam. Antes de começar a tocar a próxima música na velha guitarra que já estava desafinada de novo, a mesma canção que abriu o show na rádio da escola, a Dona Lizandra acusa que as panquecas estão prontas e pede pra que o filho arrume a mesa.

Tudo começa com uma boa refeição, e nada melhor que começar com o seu prato favorito, sabia o que iria fazer a tarde, mas agora queria saborear cada pedacinho do melhor almoço do mundo, feito pelas melhores mãos em uma época que as coisas dão errado, é bom lembrar do que deu certo.

Continua...[/i]

On February 19 2010 Edit






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