Literatura...Dalai !!
[b] Por um instante, aquele sentimento de vício de vida: uma pessoa morre baleada por assaltantes e, na defesa, seu filho. Aquele instante é justamente o de digerir essa notícia: alguém inocente que morre. O mundo perde uma (duas) vida (s). Alguém não acordará amanhã. E mesmo sempre morrendo, nós ainda nos surpreendemos com isso: o fato de alguém não acordar dá ao dia de amanhã um ar de tristeza, de solidão, de pequenez. Sim, somos pequenos. E morremos. E pensamos, no final desse momento, que nunca vamos superar isso.
Depois, vem a indignação: uma pessoa morre baleada por assaltantes e, na defesa, seu filho. Ambos baleados por criminosos que se julgam superiores. Bobagens na cabeça, talvez drogas no sangue, bebida, enfim. Coisas não humanas desumanizando indivíduos que procuram sua animalização. E o mundo não para na morte de ninguém, mesmo que seja famoso, rei ou rainha, presidente ou o rei do pop. Independente do luto que ocorra, o cartório estará aberto, ou o escritório de contabilidade, a igreja, a lanchonete do M grande e amarelo, o shopping, sim, o shopping estará aberto. O mundo não para na morte de ninguém, nem mesmo para pela injustiça no mundo, pela irracionalidade, pela desumanidade, e se mantêm abertos, todos, como se o mundo fosse maior, e realmente é, esquecendo-se que o mundo também é vivo, e também pode ser vítima de assaltantes em uma noite qualquer.
E depois o último momento: o da saudade não explicada. Não o conhecia. Conhecia apenas seu nome e seus desenhos. E o mais incrível: nem gostava de seus desenhos, e seu nome me trazia náuseas de um homônimo que tive na adolescência que muito me espancou, acreditando que isso engrossaria minha voz. Não engrossou. E o nome para mim continuava sujo pela indiferença. Mas abro a Folha Online de hoje, sexta-feira (louvado sejas, Senhor) e me deparo com a notícia: morreu hoje o cartunista, baleado por assaltantes e, na defesa, seu filho. Triste isso, não? E surgem mensagens de amigos, outros cartunistas com seus desenhos, e aquele menino estranho e hiperativo com o pipi de fora e tudo parece igual, a não ser o luto deles, o tom de tristeza, a mágoa na voz, a saudade no traço. E fui ver a tirinha publicada hoje, sem ninguém sonhar com algo assim: duas armas na tirinha, talvez um presságio, talvez uma coincidência, triste, confesso, mas quem sabe. Duas armas, dois tiros, um para o pai, outra para o filho.
E começo a pensar que vou sentir saudades das tirinhas, das piadas que não entendia, dos traços que acreditava estranhos e mal-acabados e percebo: com aqueles tiros, morreu também minha indiferença em relação à vida que nem conhecia, nem fazia questão de conhecer, porque não admirava. A admiração e o desejo de conhecer vieram tardios, após a noite dessa quinta-feira. E vejo que seu sorriso tinha graça, que seus personagens eram reais, que seu olhar tinha saudade. E começo a perceber o que todos devem perceber antes da morte do Outro: todos temos importância, significado, valor. E, por um breve instante, meu mundo parou em homenagem a ele. Sim, homenagem tardia, eu sei, mas ainda assim uma homenagem, de alguém que nunca o admirou. Admirá-lo-ei após a morte, mesmo que isso seja clichê ou banal. Que assim seja, pois com isso vem uma luz bem pequeno no final da escuridão humana, e ela diz que vamos superar isso, que sairemos juntos disso, que encontraremos um caminho novo, diferente disso. Disso... Isso... Não a morte, não a saudade, não a mágoa, o choque, mas a desumanidade do homem. Um dia, sairemos juntos dessa bestialidade de mundo.
Só espero que esse dia não seja tarde demais, como é tarde demais minha admiração por Glauco.
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On March 15 2010
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